EM DEFESA DA MEMÓRIA

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL GAZETA DO POVO EM 14.01.2005

EM DEFESA DA MEMÓRIA

 

Alan Schlup Sant’Anna

 

Memória é uma habilidade mental sistematicamente injustiçada pela escola. É assustador o que tem sido feito com muitos de nossos estudantes.

O professor entra na sala de aula no primeiro dia, e vai logo dizendo que os alunos não precisam decorar nada, apenas entender. E sabe o que é pior? Os alunos acreditam.

Meu amigo, você reconhece o algarismo 4 e o associa a uma quantidade porque um dia memorizou que este símbolo representa aquela quantidade. Mesmo na matemática temos que memorizar.

Simplesmente não existe disciplina, ciência ou profissão em que não se precise memorizar algo!

Mas de onde vem, então, esta idéia de que não precisamos memorizar?

Há algumas décadas os educadores perceberam mais claramente que apenas memorizar não é suficiente. Até aí, ótimo. O problema começou quando, assumindo a velha tendência humana de posições extremas, a memorização de atividade insuficiente para o aprendizado ganhou status de atividade proibida.

Trata-se de um erro grosseiro!

Memorizar entra na categoria das condições não suficientes, porém necessárias.

Aponte-me um profissional de alto desempenho que não tenha uma grande quantidade de informações na memória. Existem, de fato, mas são exceções.

Muitos educadores ainda fazem questão de se referir a essa importante habilidade, a memória, como “decoreba“, que é um termo pejorativo, tratando o exercício da memorização como uma habilidade menor a ser quase completamente negligenciada.

Nesta paranóia da não “decoreba” surgem extremismos como a proibição de se cobrar dos alunos o conhecimento de datas na disciplina de história, por exemplo.

É óbvio que mais importante e mais útil do que memorizar uma seqüência de eventos é compreender as relações de causa e efeito entre eles, mas ignorar completamente as datas é um absurdo. Conheci alunos de ensino médio que não sabiam se a revolução francesa havia ocorrido antes ou depois da segunda guerra mundial.

Não é difícil encontrar escolas que se vangloriam de que em seu sistema de ensino não é preciso decorar nada! Ora “nada” é um termo absoluto, o que por si só já torna a afirmação suspeita.

Normalmente o que a escola ou o educador quer dizer é que o objetivo final é compreender e não memorizar. Acontece que o discurso usual diante dos alunos é exatamente o que eu citei, ou seja: “Não é preciso decorar nada!” O cérebro das crianças e jovens é como uma esponja e se o seu professor disser que não é preciso decorar nada, é exatamente isto que eles vão entender.

Fui professor por muitos anos e sempre disse aos meus alunos que embora a memorização não seja, de fato, condição suficiente para o aprendizado, em hipótese alguma deixou de ser condição necessária. Alertava ainda para o fato de que é um grave erro o descaso com que esta importante habilidade mental vem sendo tratada.

A capacidade das pessoas de memorizar depende muito de estímulo, literalmente de treinamento. Muitas escolas e professores dentro e fora do Brasil têm tratado a questão pessimamente, dizendo para seus alunos que eles não precisam de boa memória. Para completar a tragédia, os professores que tentam fazer com que seus estudantes desenvolvam esta habilidade são logo rotulados de retrógrados por alguém contaminado pelo paradigma da “não decoreba”.

É preciso repensar esta questão e voltar a valorizar a memória sem, de forma alguma, esquecer do objetivo prioritário que é a compreensão.

Meu amigo, quando seu filho ou filha chegar em casa contando que o professor falou: “não é preciso decorar nada”, diga para ele que a palavra não é decorar e sim memorizar e que o seu professor está equivocado.

Finalmente diga: – Desenvolva a sua memória, meu filho, você vai precisar dela!

 

Alan Sant’Anna é escritor, palestrante e consultor, autor dos livros: DISCIPLINA O CAMINHO DA VITÓRIA, TEMPO E SUCESSO e EQUILÍBRIO PARA UMA VIDA MELHOR. conexão.consult@terra.com.br